segunda-feira, 2 de maio de 2016

Polarização, sectarismo, maniqueísmo e outros "ismos"!

Fico sempre um pouco reticente em emitir minha opinião na terra de ninguém. Há o lado positivo e, com a mesma força, o negativo em dizer o que se pensa, já que o ser humano possui e estranha habilidade de distorcer e interpretar segundo a sua conveniência de momento.

É bem verdade que acreditamos no que queremos. Rara é a pessoa que lê tudo, ponto e contra ponto, investiga, busca as bases, vai atrás de tentar compreender o que evita ou não compartilha. A maioria esmagadora de nós compra um pacote de dados que estão mais à mão, pagamos o preço mais em conta possível e buscamos a facilidade da padronização, sempre acreditando que estamos comprando o melhor pacote...


Acho curioso como concluímos nossas escolhas: sempre a melhor! Não há questionamento interno, não há busca por alternativas diferentes daquela posição tomada. A escolha é, simplesmente, concluída como a melhor em um simples porque alguém disse, porque alguém escreveu, porque é um intelectual que está dizendo, porque o padre da minha paróquia contou, porque meu amigo corintiano sabe das coisas, porque o meu médico disse e porque eu sou uma boa pessoa e porque escolhi o lado bom, o lado certo, correto, honesto e o melhor para mim e para o meu país. E basta! Tudo o que vier, além disto, que não seja para confirmar esta escolha rejeita-se. Pior, demoniza-se. Condena-se a outra escolha, bem como quem escolheu outro ponto de vista. O outro é sempre o lado mal, o lado insensato, burro e ignorante porque escolheu um lado diferente. Compramos esta certeza e passamos a combater o outro.

Eu tenho uma filha e, como mãe, eu leio tudo sobre alimentação, educação, saúde, desenvolvimento etc. e tal. Claro que entre tantas vertentes, linhas de pensamento, pesquisas das mais diversas e, há também a  minha observação com relação a atitude de outros pais e suas consequências, e então busco uma alternativa para aplicar no desenvolvimento da minha cria. Mas, apesar de uma vez escolhido entre este e aquele, continuo a ler e a estudar e não me incomodo de mudar de ideia, escolher outra opção, ponderar, refletir e experimentar.

Abraçando uma atitude e tapando os olhos para outras eu me torno obtusa e comprometo aquela vida que me responsabilizei. Nem por isto me classifico como "vacilona", "isentona", "falsiane", "otariana"! Eu não tenho status quo. Não preciso de uma classificação. Não pertenço a nenhuma classe e nem a nenhuma casta. 

Busco informações sobre vacinas, por exemplo. Faz mal? Faz bem? É o melhor? Já dei e já não dei. Já mudei de ideia quando não dei, fui dar depois e também já me arrependi de ter dado.

Acontece que a vida é assim mesmo, descobertas constantes do sim e no não, do bem e do mal, da vanguarda e do ultrapassado. Cabe a nós dançar conforme o momento. Não se cessa uma busca e a decisão não é, necessariamente, definitiva. Vejo neste tipo de atitude um estreitamento mental regado por preguiça e egocentrismo. A busca é pelo resumo do mais fácil, o que me dará menos trabalho e pronto. É uma necessidade neurótica em se buscar uma única tese e gastar e desgastar-se defendendo o indefensável.

É muito menos trabalhoso pesquisar, buscar, informar-se e refletir do que gastar todas as suas forças defendendo uma posição, até porque somos a soma de vários pensamentos senão não seríamos humanos e sim robôs zumbis e seu pacote de dados imutáveis instalados em um hardware. O que nos difere das máquinas é justamente esta capacidade de raciocínio e a liberdade de pensamento.

Não entendo esta busca por padronização do pensamento. É claro que não estou fugindo as regras que mantém a ética para conviver. Só que para mim a ética é aquela que coloca o coletivo, possível naquele momento, acima do ideal teórico. Não acredito, contudo, que esta escolha se encerra em si mesma. Não acho utopia buscar sempre a melhora, o aperfeiçoamento, já que somente a busca é que torna possível o desenvolvimento humano. Sei que nunca chegaremos a um ideal ou a uma vida que consideramos razoável, mas é constante busca que nos permite chegar ou manter o razoável, já que o razoável de ontem será, provavelmente, insuficiente amanhã. Por outro lado, em meus 50 anos de vida, pude perceber que o que move a todos é exatamente a busca,  independente de tornar o anseio em atitude ou mantê-lo como sonho.

Esta elucubração toda é por conta das polarizações em que nos encontramos hoje e a busca insana pelo sectarismo da ideologia.

Sabendo-se, desde pequenos, que o ideal teórico é uma condição impossível de se manter por mais que um pequeno período de experimentação, porque nos agarrarmos como se fosse o último tronco de salvação?

A salvação sempre esteve e sempre estará na união. No consenso. No meio termo, na mediação e negociação onde cada extremo ceda em favor do todo. Sabemos também, lá no fundo da alma, que não existe uma pessoa boa ou uma pessoa má. Temos, dentro de nós, o médico e o monstro. O altruísta e o mesquinho. O humilde e egocêntrico. O inteligente e o infantil emocional, nossas conquistas e nossas derrotas marcadas na história que escrevemos. O que importa é o que fazemos com esta dualidade. Vamos errar, sempre, mas vamos dar outra chance e vamos tentar de novo e daremos espaço para o nosso colega errar e tentar de novo sem pregar um rótulo na testa alheia, como condenação eterna. Uma pessoa não é somente uma atitude e talvez a atitude daquela pessoa nem tenha existido, senão em nosso pensamento paranoico ou em uma maledicência de algum complexo de inferioridade.

Convido aos extremistas a olhar para dentro de si próprios e perceber o que sentem, onde buscam suas certezas, onde estas certezas levaram o coletivo e quais são as consequências do extremismo em si. Exemplos na história da humanidade não faltam. Todos os extremismos levam ao sofrimento, a discórdia e guerras.

Nunca o extremismo foi saudável. No máximo, ele é conveniente para alguns poucos que mantém um interesse nada ideal por trás daquilo que prega. Convicção nem sempre é a melhor aliada em um mundo em constante movimento. 

Chamar os militares de volta ou cuspir- nos são extremos idênticos um ao outro. São a constatação da intolerância, do preconceito, do egocentrismo, do desrespeito absoluto de nossa história, além de um egoísmo insensato para com o futuro das próximas gerações.

Fazer coco em púbico em cima de uma foto, colocar fogo em pneus para fechar o trânsito, quebrar patrimônio público não condiz com a coletividade. É sub-humano. É extremo. Ilógico. Irracional. Sectário. Se um político rouba a merenda das criancinhas, roubamos delas a moral e a decência. Enquanto um político corrompe com dinheiro, corrompemos a dignidade.

Não lhe parece ilógico e infantil romper uma amizade, romper laços familiares de amor, convivência, história, risos e lágrimas compartilhadas em nome de “nãoseiquê”? Não lhe parece egocêntrico classificar os que pensam de forma diferente de “ignorantes”? Não lhe parece mesquinho e obtuso rotular uma pessoa pela visão política que ela tem? A pessoa é só isto? Nada mais do que sua visão política? Parece-lhe possível enxergar o todo, daí de onde está sentado? De sua vivência? De suas experiências?  Acredita mesmo ser possível julgar uma pessoa por 15 minutos de convivência? Acha mesmo que tem superpoderes de enxergar o tamanho do iceberg somente avistando sua pontinha para fora de um oceano de km de profundidade? A partir de sua visão parcial de mundo?  Você realmente luta por melhores condições da sociedade ou é por vaidade ideológica? É mesmo pelo Brasil ou pelo seu pedaço? Ou pela sua classificação? Seu status quo? Você consegue perceber o outro como um universo possível e de direito ou vê o outro como um estereótipo imaginário? Você tem certeza absoluta de que o que você pensa é o que é? E, se não for? Não lhe parece mais prudente a reflexão inconclusiva a bater o martelo em um veredicto que pode condenar toda a sociedade? Não é melhor investigar tudo, estudar, buscar, conversar, pesquisar, ponderar todos os lados de uma questão?

Não lhe parece que o equilíbrio está no caminho do meio? Nem lá, nem cá?

Percebe que o seu braço não é capaz de parar o mundo para ele ser o que você determina? Não lhe ocorre que criticar os outros, o tempo todo, porque não agem e não pensam como você não lhe dá opção de crescimento e ponderação? Esta crítica + ódio, 24 horas por dia, lhe trás algo de bom? Algo de positivo para a vida de alguém? Não seria o contrário?

O amor, tolerância, compreensão, humildade e desprendimento que fazem a vida tornar-se um lugar melhor para todos? Não lhe parece que a você, cabe fazer a sua parte e que a sua atitude é capaz de dar o exemplo, contagiar, estimular outros a fazer o mesmo?

Não julgue, não critique, não condene o outro pelo o que se passa dentro de sua cabeça, porque o que se passa dentro da sua cabeça pode não ser real. Uma pessoa não é só o que você pensa dela. Talvez ela esteja na sua frente para lhe mostrar os outros tantos ângulos da vida. Por que desperdiçar esta oportunidade? Em nome de quê? Da sua certeza? Certeza de quê? Só se for a certeza de que quanto mais sábios, mais descobrimos que não sabemos de nada.

Dê a liberdade que tanto proclama. Dê a oportunidade de uma pessoa ser livre sem julgamentos. Dê o direito ao outro de se expressar. Dê a condição para as pessoas e outros seres de outras espécies evoluírem segundo a sua própria consciência, discernimento e experiência de vida.  Aceite o outro como ele é. Ame ao invés de odiar. Ofereça tolerância e aceitação para o que você não concorda. Pratique o desprendimento, o afeto, o perdão, como você pratica exercícios físicos. Os mentais também são importantes.

Não escolha a quem dar a sua compreensão. Compreender o compreensível não há mérito, nem virtude. Aceitar o aceitável, concordar com o coerente, respeitar o respeitável e ser amiga do amigável não lhe oferece nem esforço, nem tração, nem crescimento.

A riqueza da vida está na multiplicação das diversidades, das várias culturas, diversas línguas, diferentes sistemas, inúmeros métodos...

Sua atitude absolutista não passa de autoritarismo. Leva você e a humanidade toda, incluído as minorias, que tanto defende, ou o seu lado individual e quentinho, que tanto se agarra, para o mesmo lugar: o buraco negro. Exemplos na história não faltam.

Chamo sua ideologia de teimosia! Daqui de onde estou, no meio do fogo cruzado, vejo sua atitude idêntica a de seu oponente. Você é igual a ele. Olha que horror!!

Ideologia é como religião ou um bom vinho. Um pouquinho dá um rumo, mas o excesso desnorteia e lhe transforma em mais um guia cego! Maniqueísta e maquiavélico!


    
      


Você gostou desse artigo?

Inscreva-se e receba notícias, dicas, promoções e muito mais!

Cynthia Camargo é publicitária, agente de viagens, agente internacional e jornalista. Coordena viagens de arte, gastronômicas, de luxo e de incentivo pelo o mundo! Especializada no destino França, é autora do guia Paris Legal, editado pela Best Seller. Trabalha com o turismo de conteúdo há 20 anos e recebeu o prêmio Mulher Influente. Autora do blog de viagens SendoCy, conta suas experiências pelo mundo com dicas e muito humor! Acesse, leia e participe, se inscreva e conte suas histórias! Afinal, todo mundo tem uma história de viagem para contar! Google +